quarta-feira, 26 de outubro de 2011
Propércio
sexta-feira, 15 de outubro de 2010
O Arquivo Tatsumi Hijikata
Entrevista publicada em http://performingarts.jp/E/art_interview/1.html
Traduzido por Roger Valença
Hoje, o "Arquivo Tatsumi Hijikata” do Centro de Pesquisa de Artes e Administração Artística da Universidade de Keio em Tóquio coletou um arquivo definitivo dos materiais de Hijikata e sua arte. O arquivo se instarou em 1998 com um centro de materiais da coleção do estúdio de Hijikata, o Asbestos Studio. Nesta entrevista, um dos iniciadores do movimento para criar este arquivo, o crítico de dança Tatsuro Ishii, conversa com Takashi Morishita, a pessoa responsável pelo arquivo, sobre seu conteúdo e sobre como é utilizado. (entrevistador: Tatsuro Ishii)
I: Yameru Maihime é considerada a bíblia do Butoh de Hijikata hoje em dia. Escrita num estilo literário único, explora as memórias de sua infância em Tohoku e contêm muitas expressões que fornecem descrições sucintas de imagens físicas do corpo. Com seu dialeto regional particular existem muitas passagens que são difíceis de entender para a maioria dos japoneses. Por exemplo, uma passagem diz “Pensando que seria boa a morte de alguém, eu engatinho sob o alpendre, e, com certeza, como se alguém houvesse morrido, há uma aranha tecendo a teia no escuro”. É realmente supreendente aprender que este tipo de passagem foi ditada e não escrita. Eu gostaria de continuar agora com nosso tema principal, o Arquivo Tatsumi Hijikata. Como eu fui uma das pessoas envolvidas com sua fundação, eu vou complementar com algumas informações adicionais. Os materiais que formaram o núcleo original do Arquivo foram os materiais do "Arquivo Memorial Tatsumi Hijikata", no qual a Sra. Motofuji usou de seu próprio acervo para compilar, logo após a morte de Hijikata, não foi?
I: Quem eram algumas das pessoas envolvidas com o comitê de direção?
I: Na época já existiam diversos arquivos já instituídos no Centro de Artes da Universidade Keio. Eu fui até a Sra. Motofuji e perguntei à ela se cooperaria conosco se fizéssemos um arquivo Tatsumi Hijikata. Ela imediatamente me deu uma resposta positiva, então, em 1997 eu fui discutir a possibilidade com o diretor assistente do centro de Artes na época, Fujio Maeda, e um membro da equipe, Tomoko Kusuhara. Ambos disseram que gostariam muito de ver um arquivo assim fundado, então, logo após, nós entramos no estágio de reparação. Os problemas que emergiram imediatamente foram o que adotar como os princípios para o arquivo digital e que sistemas isto envolveria.
I: Você pode nos contar a respeito do atual conteúdo do material coletado e preservado no arquivo?
I: E quanto aos materiais de 1940 e 50, antes que Tatsumi Hijikata se tornasse vastamente conhecido?
I: Existe algum texto remanescente que Hijikata escreveu ele mesmo? Há algo como notas de palco ou diários?
M: No meio das anotações, existem algumas ainda não arquivadas que pertencem à Sra. Motofuji e que aparentam ser um limitado número de anotações que foram aparentemente de processos criativos que não foram publicados ainda. Os materiais mais importantes no papel são a série de partituras que vieram a ser conhecidas coletivamente mais tarde como Butoh-fu. As partituras Butoh-fu que restaram no Estúdio Asbestos após a morte de Hijikata estão agora na coleção do nosso Arquivo Hijikata e eu acredito que existem algumas notas importantes em posse dos dançarinos principais do estúdio como Yoko Ashikawa e outros aprendizes de Hijikata.
I: As partituras Butoh-fu são muito importantes para explorar as origens e os princípios originais do Butoh de Hijikata. Entretanto, é muito diferente do que é conhecido como notação de dança no Ocidente, como por exemplo a Labanotation, de Rudolf Laban. As partituras Butoh-fu são únicas neste sentido.
M: No “Butoh-fu no Butoh” (Butoh de partituras Butoh-fu) de Hijikata , são dados nomes a todos os movimentos. Em outras palavras é um tipo de codificação. E se você colocar estes movimentos juntos se torna um trabalho de Butoh. Este era o método de trabalho de Hijikata conhecido como “Butoh de Butoh-fu”. Portanto, não há nada que possa ser chamado de script de espetáculo. Tudo o que restou do Butoh de Hijikata são os textos conhecidos como “Butoh-fu”. Assim como o Butoh-fu, existem cadernos nos quais nos quais Hijikata colou figuras e pinturas cortadas de livros de pintura ou revistas de arte e escrevia notas a respeito de como essas pinturas poderiam fornecem princípios para novas formas de movimento, assim fazendo pinturas uma fonte de recursos para o movimento. Nestas páginas nós podemos ver suas notas para nomes de diferentes movimentos ou notas sobre qual parte dos recortes eram para ser usadas e de que forma, assim como notas sobre que tipo de figurino seriam utilizados. Existem também alguns Butoh-fu feitos em grandes pedaços de papel e outros escritos em pequenos recortes de papel. Dos vários Butoh-fu, os mais claros são aqueles que dizem respeito as notas registradas pelos estudantes do que o Hijikata dizia nos ensaios. Esses registravam os nomes de movimentos e notas a respeito da movimentação de que eram consistidos ou expressões poéticas ou metafóricas e palavras que inspiravam as imagens usadas. Independentemente do que eram consistidos, os “Butoh-fu” são materiais muito importantes para mostrar o processo criativo e a metodologia de Hijikata. Eles são muito interessantes de serem lidos atualmente e certamente são uma fonte essencial para a pesquisa da arte do Butoh de Hijikata. Existem alguns estudantes estrangeiros que escreveram suas teses de doutorados sobre os Butoh-fu.
I: Eu acredito que dar nome a cada movimento individual para que os dançarinos pudessem recriar os movimentos de um trabalho usando o Butoh-fu foi certamente um método revolucionário adotado pelo Butoh de Hijikata nos anos 70, mas ler (decifrar) o Butoh-fu é muito difícil. Não é o tipo de anotação que qualquer um poderia aprender para recriar, a partir disso, a movimentação com a prática, é?
M: Você está certo, não é. Existem alguns casos como para a peça "Nadare-Ame" em "Shiki no tame no niju-nana ban" onde existe um caderno inteiro escrito para uma peça, mas a maioria são apenas anotações registradas de idéias ou imagens que Hijikata tinha em sua mente. Embora possa ser chamado de um tipo de notação, não podemos especificar tipos de movimento dos textos do Butoh-fu que não são nada além do que uma coleção de expressões codificadas. Todavia, os aprendizes de Hijikata são capazes de recriar movimentos de nomes escritos lá. Por exemplo, no caso de Yukio Waguri, foram ensinados a ele entre 1200 a 1300 tipos de movimentos do Hijikata. E uma vez que ele ouve o nome do movimento, pode imediatamente reproduzi-lo. Hijikata criou e desenvolveu um número muito grande de movimentos e uma das coisas que nós temos que pensar no estudo do Butoh-fu é descobrir que movimentos haviam, quais eram as fontes por trás deles e sob quais códigos foram criados. E então nós temos que explorar a problemática de como os mesmos foram agrupados em peças de dança Butoh. Além disso, eu acredito ser possível que, ademais de seqüenciar movimentos em peças, Hijikata queria criar um “Butoh de Butoh-fu” que remanesceria como um tipo de estilo que poderia ser transmitido para as gerações seguintes de dançarinos.
I: Uma dessas exibições que me vêm a mente é “Barairo Dance no Iconology – Reconstruindo Tatsumi Hijikata” realizado em 2000. "Barairo Dance - à la maison de M. Civecawa" é um trabalho de 1965 no qual os contemporâneos de Hijikata na arte de vanguarda, Natsuyuki Nakanishi, Tadanori Yokoo, Mitsuo Kano, Gempei Akasegawa e Sho Kazakura participaram com trabalhos de arte. E envolvidos com a música estiveram Takehisa Kosugi e Yasunao Tone. Isto fez do mesmo um trabalho colaborativo entre artistas de Butoh, arte contemporânea e música.
M: "Barairo Dance" é um dos trabalhos relativamente recentes de Hijikata. Quando eu conversei com o Sr. Yokoo-san e o Sr. Nakanishi sobre o mesmo e estudei os materiais que me foram entregues por eles, vários aspectos do processo criativo de Hijikata ficaram evidentes. Eu descobri que a cenografia e o figurino foram um resultado de idéias tanto de Hijikata quanto de sugestões do Sr. Nakanishi. Além disso, os pôsteres pelos quais o Sr. Yokoo ficou conhecido foram na verdade um produto de uma sinergia de idéias colocadas de Hijikata, Nakanishi e Yokoo. Desta forma, Hijikata pode ser chamado de um (Serge) Diaghilev do Japão pela maneira que trouxe os talentos de uma variedade de artistas. Então, decidimos por este tema da exibição com visando propor um modelo de um arquivo “genético” que daria suporte a pesquisas sobre os processos criativos de um artista.
I: Eu acredito que Hijikata foi definitivamente um gênio criativo em muitos aspectos, mas mesmo para um gênio como ele não existem modos de toda a arte que podemos associar a ele virem puramente de dentro da mente e da alma de um único homem. Ele com certeza foi influenciado e inspirado por uma grande variedade de artistas, começando por Antonin Artaud e Jean Genet e incluindo seus contemporâneos japoneses em inúmeros campos, e acumulou esta inspiração em seu interior. Por exemplo, a respeito do subtítulo de "Barairo Dance" diz-se que é uma homenagem à Tatsuhiko Shibusawa. Revelar coisas como esta através da pesquisa do processo criativo de Hijikata é com certeza algo de grande interesse para todos aqueles interessados em sua arte e trabalho. Um dos projetos sendo conduzidos com esta aproximação é o “Arquivo do Movimento” (Ugoki no Archive) que vocês estão criando. Você nos contaria sobre este projeto em maiores detalhes?
M: O Arquivo do Movimento está sendo criado criado com a cooperação de Yukio Waguri e Moe Yamamoto. Por exemplo, há uma peça chamada "Shomen no Isho" que Hijikata coreografou para Moe Yamamoto em 1976. Para esta peça, as “Notas de Butoh” que Moe copiou em detalhes das explicações de Hijikata e uma gravação em vídeo da performance sobrevivem. As notas de Butoh de Moe são extremamente valiosas porque ele escrevia tudo o que Hijikata dizia a ele, então me fez pensar se nós não poderíamos usar tais notas para recriar todos os movimentos anotados nelas. Existem mais ou menos 330 movimentos que Moe recebeu de Hijikata para esta peça. Nós fizemos Moe representar todos dos movimentos e filmamos cada um deles. Além do Moe, nós também terminamos de filmar os movimentos que Waguri re-encenou para nós da caderneta de partituras Butoh-fu que ele registrou, e há também algumas outras que Saga Kobayashi tinha. Quando nós juntamos tudo, tínhamos filmado cerca de 1500 a 1600 tipos de movimentos. Gravando em filme os movimentos de Butoh-fu que restaram, o projeto Arquivo do Movimento procura revelar a estrutura do Butoh de Butoh-Fu de Hijikata e assim revelar seu desenvolvimento de movimentação e metodologia para sua coreografia. Até agora nós apenas temos essa coleção de filmes em servidor e discos-rígidos, mas eventualmente eu gostaria de desenvolver um banco de dados das filmagens. Eu acredito que isto vá se tornar um tipo raro de filme de Butoh-fu, de um tipo que provavelmente não existe em nenhum outro lugar do mundo.
É um trabalho que vai além das funções tarefas de um arquivo normal de coletar e preservar materiais do passado para criar novos materiais adicionando interpretações contemporâneas. Esse projeto já produz alguns resultados, incluindo a criação de um DVD explanatório intitulado “Tatsumi Hijikata – Butoh do Butoh-fu - O Butoh Notacional de Tasumi Hijikata” (versões em inglês e japonês) e um livro intitulado "Tatsumi Hijikata – Butoh do Butoh-fu – A criação decódigos e descobrimento do método" também publicado, que explica o processo de filmagem das movimentações e oferece uma explicação teórica do Butoh do Butoh-fu.
I: Quando os movimentos são feitos para a filmagem, o que vocês fazem a respeito do figurino?
M: Nós não demos atenção a coisas como o figurino em absoluto, apenas focamos puramente na movimentação. Como o propósito tem sido procurar pela estrutura e metodologia do Butoh de Hijikata, por assim dizer, até agora nós não estivemos interessados nos trabalhos específicos em si. Quanto aos comentários dos performers, eu tenho feito entrevistas e compilações de seus comentários. O método do Butoh-fu de Hijikata envolvia ligar diferentes movimentos aprendidos através de uma prática vigorosa para formar sucessões de movimentos que se tornariam cenas, e então ligar cena a cena para criar um trabalho. Embora a coreografia seja estritamente determinada, não é dado ao dançarino um fluxo predeterminado ou um único tema consistente (história) para o dançarino encenar.
I: Existe a possibilidade de que alguém venha a utilizar alguns dos cerca de 1500 movimentos que vocês gravaram para fazer novos trabalhos de Butoh?
M: Em parte, nós esperamos que isto aconteça. Por outro lado, há pessoas que dizem criticamente, “qual é a função dessas filmagens? Sem o Hijikata, esses movimentos não perdem o sentido?”. E eu entendo suas razões. Entretanto, existe a possibilidade que algum outro dançarino genial venha a fazer algum uso da metodologia de Hijikata, e eu acho que seria ótimo se isso acontecesse.
I: Na sua exibição mais recente ano passado, você focou no trabalho que muitos consideram ser a culminação do Butoh de Hijikata nos anos 60, o solo "Tatsumi Hijikata to Nihonjin – Nikutai no Hanran" (Tatsumi Hijikata e os Japoneses – A Revolta do Corpo).
M: Ademais ao Arquivo Tatsumi Hijikata, o Centro de Artes da Universidade Keio também tem arquivos para Shuzo Takiguchi, Shoichi Yui e Isamu Noguchi. Quando foi decidido fazer uma exibição trazendo materiais desses arquivos sob o mesmo tema, o resultado foi a exibição “1968 –Nikutai no Hanran to sono Jidai” (1968 – A Revolta do Corpo e sua Época). "Nikutai no Haran" estreiou em 1968, que foi um ano essencial em muitos sentidos, simbolizado pelo pico do protesto do movimento estudantil japonês. Na exibição de nosso arquivo foi criada uma instalação para expressar isso. A exibição foi seguida da edição de um livro intitulado "Nikutai no Haran – Butoh 1968 / Semiologia da Existência" que trouxe uma vasta coleção de fotografias das performances de 'Nikutai no Haran" e todos os materiais do arquivo como notas a respeito de ingressos e listas de convidados da platéia que nunca haviam sido mostrados antes. Também ansiando reinvestigar os pensamentos de Natsuyuki Nakanishi em relação à cenografia para "Nikutai no Haran", eu também incluí uma discussão com o artista e materiais relacionados no livreto.
I: Existe alguma partitura Butoh-fu remanescente para "Nikutai no Haran?
M: Não, infelizmente não restou nenhuma. Além disso, nem mesmo sabemos se realmente houve um Butoh-fu e resta muito pouco em relação aos dados de músicas e outros materiais relacionados à produção.
I: Isso significa que o trabalho que mais pode ser comparado diretamente com as partituras de Butoh-fu que Hijikata deixou é "Shiki no tame no niju-nana ban"?
M: Das cinco peças em "Shiki ni tame no niju-nana ban", algumas podem ser recriadas em parte no que se refere ao Butoh-fu que sobrou.
I: Para "Shiki no tame no niju-nana ban" existem alguns manuscritos ou notas escritas além das partituras de Butoh-fu?
M: Existem coisas que ele disse em entrevistas de jornais. Para começar, ele fez coisas como inventar frases de efeito para descrever sua arte, como “Tohoku Kabuki”, mas nessas entrevistas nem em outro lugar, ele nunca falou diretamente sobre o que ele procurou expressar em seus trabalhos e em seus próprios pensamentos. Em situações como colóquios ou coletivas com a imprensa, Hijikata não fala em termos específicos a respeito de sua metodologia, então as únicas descrições que nós temos são feitas por terceiros. Entretanto, existiam algumas verdades ocultas dentro das coisas que ele dizia, então nós precisamos selecionar essas coisas e descobrir o que realmente ele estava revelando. Por exemplo, ele mentiu muito sobre sua origem. Falando como se fosse verdade, ele disse coisas como ele era um de onze crianças e que todos os irmão morreram na Guerra e todas as irmãs se tornaram prostitutas, por exemplo. Nós podemos especular que Hijikata achava algo real em coisas escondidas como essa. Contudo, algumas dessas falas foram publicadas como verdadeiras e houveram ocasiões em que pesquisadores estrangeiros escrevendo biografias de Hijikata tomaram tais histórias como verdadeiras.
I: Dentre as mais famosas citações de Hijikata tem aquela em que ele diz, “Eu tenho uma irmã mais velha vivendo em meu corpo. Quando estou concentrado tentando criar um trabalho de dança, ela rasga a escuridão em meu corpo e come mais do que necessita. Quando ela se levanta, eu me encontro sentando inconscientemente”. [Do livro de "Hijikata Inu no Jomyaku ni Shitto suru koto kara (De ter ciúmes das veias de um cão, 1976)]. Quando considerado à luz da educação de Hijikata (na região nordeste de Tokohu), palavras como essas realmente estimulam nossa imaginação, mas nós somos incapazes de dizer em que grau eles são verdade e em que grau elas advem do mundo de sua imaginação intensa.
I: Uma das atividades de seu arquivo é cooperar em exibições que aproximam o Butoh do ponto de vista artístico, como “Bijutsu to Butoh no Hijikata Tatsumi ten" ( Exibição Tatsumi Hijikata – Arte e Butoh) que foi feita no Museu Ikeda de Arte do Século 20 em 1997-98.
M: A primeira exibição como essa aproximando o Butoh do ponto de vista da arte foi mostra principal na Galeria do Centro de Arte Cívica Yokohama em 1989 intitulada “Hijikata Tatsumi to sono Shuhen ten – Butoh to Bijutsu no Hyogen Sekai wo Saguru” (Exibição Tatsumi Hijikata e Contemporâneos – Explorando o mundo da expressão no Butoh e na arte. Foi mais ou menos nessa época que percebemos as possibilidades de exibições conectando arte e Butoh, e desde então fizemos várias exibições. A última dessas maiores exibições foi uma no Museu de Arte Taro Okamoto na cidade de Kawasaki intitulado “Nikutai no Surrealism: Butoh-ka Hijikata Tatsumi” (Surrealismo do corpo: O artista butoh Tatsumi Hijikata).
I: Estou certo de que existem muitos materiais sobre Hijikata que virão à tona futuramente, então eu acredito que haverá uma necessidade do trabalho de digitalização e a re-organização continuar. Além desse trabalho, contudo, existe algum projeto em particular que vocês queiram se dedicar no futuro?
M: Embora não seja nada de novo, um dos problemas do Butoh atualmente é sua internacionalização. A grande maioria dos escritos sobre Hijikata atualmente em circulação são aqueles escritos ou em inglês ou francês. Esses escritos não estão sendo propriamente apresentados no Japão. Eu acho que alguma coisa deveria ser feita sobre essa situação. Independentemente de questões sobre a qualidade de tudo o que tem sido escrito por autores estrangeiros, eu acho que o Japão deveria estar ciente do que está sendo dito sobre Hijikata e o Butoh além-mar. O ensaio "La reception du buto en France: malentendus et desires" que nosso porta-voz convidado Pages Sulvianes apresentou na Conferência Internacional de Butoh que organizamos em janeiro de 2009 era muito estimulante intelectualmente. Devido a estímulos como este, nós começamos a traduzir, em versão resumida, a coletânea de ensaios sobre Butoh intitulado "Buto (S)", publicados na França em 2002.
I: Eu concordo que é muito importante haver um circulação internacional de discussão a respeito do Butoh, entre o Japão e o mundo. Pra melhor ou pior, há idéias sobre Butoh que ganham uma dinâmica própria e que por vezes circulam sem serem verificadas no exterior. Mas o mesmo ocorre aqui no Japão. Eu definitivamente acredito que é necessário ter um circulação internacional saudável das idéias centradas no Butoh.
M: Um dos focos desses esforços a serem trabalhados agora é examinar o Butoh do ponto de vista histórico. Com um espelhamento do movimento distante do Butoh do Japão nós precisamos, à essa altura, examinar a história do Butoh novamente. Quando os artistas de Butoh, e nós que estudamos o assunto, alcançamos um beco sem saída em nosso questionamento fundamental sobre o que é o Butoh, nós freqüentemente voltamos ao Hijikata. Nós nos perguntamos o que Hijikata dizia realmente sobre certas coisas e quais eram seuspensamentos. Embora sabendo que tais coisas podem não nos levar imediatamente a respostas, precisamos ter as informações e materiais que podem ser o gérmen do pensamento arquivados em umaf orma acessível para as pessoas. Claro, nós não podemos nos tornar o Hijikata, mas podemos tornar acessíveis os materiais que mostram um certo montante do que Hijikata realmente dizia e fazia e pensava. Eu acredito que o papel do Arquivo Tatsumi Hijikata é realizar essa tarefa
Obrigado, senhores,
Rogê
rogervalenca@gmail.com
quinta-feira, 9 de julho de 2009
É com grande atrevimento e não sem presunção que os desculpo pela audácia de lançar ao mula manque este casalzinho de poesias latinas, coruscantes e preciosíssimas péro-líricas. Pois, hoje em dia, o que nos vêm à tona quando pensamos em poesia antiga? À grosso modo, dos recém-antigos: Bilac, Garret, Castro Alves, Cesário Verde etc. Dos semi-antigos: os louváveis Cervantes e Camões, depois os cancioneiros, trovadores, provençais e... “pluft”, aos não debruçados no assunto. Sendo assim, vai aqui uma pequena amostrinha da poética de Marcial e Catulo, respectivamente. Dois poetas romanos em gênero e época distintos. O primeiro da segunda metade do século I d.c, escreveu vários livros de epigramas e ficou célebre pela acidez e ironia de seus versos. O segundo, poeta lírico, Veronense da última metade do século I a.c, é considerado como um dos que mais inovaram a poesia até então produzida.
Há ainda, uma escassa prole de leitores, cabisbaixos e acuados aspirantes à literatos nos corredores sombrios das universidades, último reduto onde ainda são lidos, e onde aprendem a cultivar ,por prazer ou ofício, o verso latino. Eis então meus esboços de tradução, de fato, trabalhosa, porém muito deleitosa, e espero move-los de alguma forma, com esse sumo claudicante e jujurássico implorando difusão, bom apetite!
| 9.81 |
| Lector et auditor nostros probat, Aule, libellos, Sed quidam exactos esse poeta negat Non nimiu curo: nam cenae fercula nostrae Malim conuius quam placuisse cocis. Martialis |
| Leitor e ouvinte aprovam, Aulo, nossos livrinhos Mas certamente o poeta nega que sejam bons Não me importa: pois que o prato de nossas ceias Antes agrade aos convivas que os cozinheiros. Marcial |
| XIII |
| Cenabis bene,mi Fabulle, apud me paucis, si tibi di favent, diebus, si tecum attuleris bonan atque magnam cenam, non sine candida puella et vino et sale et omnibus cachinnis. Haec si, inquam attuleris, venuste noster, cenabis bene ; nam tui Catulli plenus sacculus est aranearum. Sed contra accipies meros amores, seu quid suavius elegantiusque est: nam unguentum dabo, quod meae puellae donarunt Veneres cupidinesque; quod tu cum olfacies, deos rogabis totum ut te faciant, Fabulle, nasum. Catullus |
| Jantarás bem, Fábulo, junto a mim se à ti os deuses ajudarem se contigo trouxeres grande e boa ceia, não sem afável menina, vinho, graças, e toda sorte de risadas. Isso, digo, se trouxeres nosso humor, jantarás bem, pois teu Catulo tem os bolsos cheios de teias de aranha. Tu em troca aceitarás meros amores, e o que tem de mais suave e elegante: pois um perfume te darei, que minhas meninas doaram aos encantos e aos cupidos; e que tu, ao cheirar, rogará aos deuses que o transformem,Ó Fábulo, num só nariz. Catulo Raton |
